O Poder Medicinal do Café ou Quem Está com Panema?

Entrevista com a Célia

A Célia é uma liderança da RESEX Mãe Grande de Curuçá e coordenadora do regional Belém do Conselho Nacional dos Seringueiros. Nesta entrevista ela fala sobre os problemas de saúde que as mulheres enfrentam na floresta, remédios caseiros, panema e as pussangas da Amazônia:

Julia: Célia, me fale mais uma vez, quais são os problemas que – agora você me contou – que as mulheres têm no parto lá na floresta, nas RESEX mesmo onde não tem hospital, não tem atendimento médico.

Célia: São vários os problemas das mulheres. Elas têm dificuldades, muitas dificuldades mesmo. Tanto no pré-natal, tanto com a saúde delas e quanto principalmente na questão do parto. Então elas estão buscando alternativas na própria floresta, no próprio meio, aquelas tradições que vêm passando de avó, de bisavó, vêm das gerações mais antigas até agora nosso dia-dia. Por exemplo, antes do parto, no momento alí que ela começa sentir as dores do parto, ela – nós já usamos como nós não temos remédio químico, nós não temos assistência médica, o estado está ausente, então é uma ajudando às outras. Então o quê é que elas usam? Elas usam o café amargo com bastante manteiga. É manteiga mesmo, não é margarina, manteiga mesmo feita do leite bovino e com um pouquinho de pimenta do reino em pô. Isso vai provocar mais a dor, vai acelerar a dor, vai tornar as dores do parto mais consecutivas, uma da outra e com isso vai facilitar mesmo, vai até ajudar mais o parto. Isso elas usam.

E após do parto elas também usam café. Usam café já amargo com um pouquinho de sal para evitar – o até mesmo para parar a hemorragia pós-parto, quando tem um sangramento além do normal. Então elas tomam o café amargo com um pouquinho de sal. Ou então elas tomam também o chá de uma planta que na minha RESEX nós conhecemos como “papagaínho”. Não sabemos o nome científico dela.

J: Qual é a sua RESEX?

C: A Mãe Grande. Então elas tomam o chá do papagaínho com a língua da raia. Raia, aquele peixe, a raia. Então a gente pega a língua da raia, seca, ela geralmente é colocada assim suspensa na direção do fogão, do fogão de lenha que nós usamos muitas vezes. Aí ela fica alí secando, defumando naquela fumaça alí e depois então no momento daquele a gente rala na própria lixa da raia que a gente conserva também como uma espécie de rala. Aí tira aquele pozinho, mistura naquele, toma aquele remédio. Eu mesma tomei esse medicamento, quando eu – no meu último parto, que inclusive foi Cesário. E então depois foi tudo normal, tudo bem. Só que eu passei dez meses sem menstruar depois do parto. Então depois de dez meses, quando voltei a menstruar, eu tive hemorragia que varou a rede, escorreu no chão. Então a minha tia veio, trouxe o papagaínho, fez aquele chá forte, ralou a língua da raia bem raladinha, tirou aquele pô e eu tomei esse remédio.

J: E ajudou?

C: E ajudou bastante. Melhorei, reduzi o sangramento, aí foi normalizando. Então geralmente são esses remédios que nós usamos.

J: Mas a cesária foi feita na cidade?

C: Foi feita na cidade. Na cidade de Castanhal. Eu tive, porque eu não tinha dor. Eu só estava perdendo líquido e não tinha dor. Então eu viajei. Fica próximo, dá uma hora e meia mais ou menos. Veja bem, a minha RESEX está até privilegiada por isso. Aí fui à cidade de Castanhal, aí tive assistência. Quando cheguei lá, o médico disse que ele tinha que fazer uma cirurgia porque o nenê estava com 176 batidas e eu não tinha dor nenhuma. Então não estava com a dor, ou seja, se eu tivesse ficado mesmo lá na comunidade, talvez tivesse que ter tomado café com a manteiga e a pimenta do reino. Mas eu já tinha um médico lá e ele entregou, preferia encaminhar para uma cidade, onde tinha um recurso melhor. Então às vezes – mas mesmo assim, depois de dez meses eu tinha até a hemorragia. Então isso acontece com as mulheres.

J: Tem casos de mulheres morrerem porque não tem médico, porque realmente é preciso fazer uma cesária, mas não tem como fazer?

C: Tem, sim. Já houve muitos casos e ainda hoje a gente vê, por exemplo, eu tive a oportunidade de estar na RESEX Verde Para Sempre no município de Porto de Moz, então é muito distantes as comunidades, os rios são longos, a RESEX é muito grande, tem um milhão e trezentos mil hectares, então naquelas comunidades mais distantes que estão alí, às vezes elas não tem uma assistência e a gente ouviu os depoimentos das companheiras dizendo que passam por esses motivos, né? E às vezes elas vêm antecipadamente, quando elas já têm parentes, passam três, quatro dias viajando de barquinho para chegar à cidade mais próxima, ou de Almerim ou de Altamira ou Prainha para ter um atendimento. Geralmente ocorre isso, elas procuram, elas geralmente vão ter os seus filhos nas cidades. Hoje elas já buscam esses recursos. Mais ainda têm esses casos assim de dor, né, infelizmente, que levam mesmo a essa questão da situação materna-infantil até da morte, neste sentido. Por exemplo, elas colocam muito que existe muito aquela questão da dor do umbigo. Agora, o quê é a dor do umbigo? A dor do umbigo é o bebé recém-nascido, porque às vezes a mãe, não é nem porque ela não queira, é pela falta de condição mesmo; aí ela não faz o acompanhamento mesmo de pré-natal, não toma as vacinas que são necessárias tomar. Então quando nenê nasce, ele tem o problema do tétano, e aí que eles chamam dor do umbigo. Qual é o remédio que eles põem quando dá o sangramento? É novamente o café em pó, misturado com barro. O barro que a gente bate na parede da casa. Aí cura aquele alí e a copaíba.

J: Externamente?

C: Externamente. E às vezes aí com isso eles vão curando, o que eles chamam a dor do umbigo. E dão um chá do hortelãzinho pro bebé. Então isso, ainda têm muito esses casos, né? Nas comunidades longes, distantes. É preciso que a gente tenha que ter uma alternativa de buscar os SUS (Sistema Único de Saúde) mais próximos das verdadeiras usuárias, daquelas pessoas que precisam mesmo de verdade. Então a gente ainda vê isso. As RESEX marinhas, eu acho que já estão mais próximas, já têm, mas as florestais são muito distantes.

J: Falando de alternativas e de remédios caseiros, né. Tem remédios caseiros contra panema também?

C: Tem. Olha, o café, Julia, o café, ele é importante para nos. Nós plantamos os café no nosso quintal. A flor do café, ela – se você vê assim quando cafeeiro, ele amanhece florido, que você sai no terreiro, no quintal, aí aquele perfume, aquelas quantidades de abelha… Então dizem nas nossas comunidades que se você toma banho da flor do café, aí você está um atrativo, pro amor, pro trabalho, sabe, pros estudos, para tudo. Vai caber na intenção que você tem na sua cabeça. Então o café tem essa importância para nos.

J: Explique para nos também o que é panema.

C: Tá. Esse tratando da panema, né. A panema é a falta de sorte, digamos assim. E ela é muito comum a questão da panema na nossa comunidade. Ela está relacionada ao amor, ela está relacionada à produção também, seja da pesca, seja da caça, seja de qualquer coisa que você adquira para sua vida de bem e você não consegue, você diz que você está panema, né. Tá panema, está sarú. Quando, por exemplo, a mulher está grávida, quando a mulher está grávida o homem já fica sarú, ela já está sarú, já está panema. Porque ela está nos primeiros dias da gravidez e tal, aí já passa toda aquela indisposição e tal. Se você tem o giral no seu quintal onde você bota o produto da sua caça, da sua pesca e for alguém botar uma bacia ali com roupa para lavar, aí já vai ficar panema.

J: E deixe eu entender. Toda vez que a mulher está grávida, o homem automaticamente está panema.

C: Isso. No início. Logo no comecinho da gravidez. Então ele precisa tomar uns banhos para tirar panemeira. Como é que ele vai tirar a panemeira? Aí ele tem que tomar banho da pachuba, a pachuba é uma palmeira nossa das várzeas. Aí faz banho da pachuba e tira panemeira. Ou faz a defumação, né. Trata defumar roupa, defuma pessoa, defuma os apetrecho de pesca e de caça, aí você usa o caroço do uxí, o caroço do piquiá, sabe, a palha da pachuba, aquela, a teia da aranha carangueijeira que fica assim grande, como se fosse uma rede de pesca e começam cair as folhas secas. Então você tira tudo aquilo e faz aquela defumação. E o chifre, chifre do boi ou do veado, qualquer animal, você raspa e coloca aí, a pimenta malagueta. Então essas são assim as pussangas da Amazônia que nós conhecemos, né.

Faz uma pussanga e essa pussanga não é pro mal, é pro bem para que a pessoa fique afortunada, ele possa ir em busca da sua imbiára. A nossa imbiára é a sorte, é a mãe da sorte, é tudo aquilo que a gente consegue pegar no curral, na tarrafa [tipo de rede de pesca], na rede ou no mutá [tipo de giral para esperar a caça], quando a gente está esperando a caça, né, enfim. Então eu acho que essas pussangas da Amazônia e as coisas assim que a gente procura. Sabiamente vêm passando dos nossos ancestrais, né, essas coisas bonitas que devem ser respeitadas e devem ser revalorizadas, devem ser revistas por todo mundo, porque elas têm, sim, a sua importância, elas acabam fazendo efeito.

J: Agora, você sabe porque que o fato da mulher estar grávida, porque que isso traz panema pro homem no início?

C: Não sei, eu acho é porque ficam ali debilitados os dois, né. Deve ter alguma coisa, uma ligação. Eu acho a própria ligação ali daquelas vidas que estão gerando uma outra vida, tem a participação. Uma gravidez quer a participação direta do homem. Sem o homem, a mulher não vai engravidar sozinha. Ela tem e aí, ele deve sentir o efeito ali.

J: Mas não é uma coisa positiva?

C: Com certeza. Bem positiva. Mas aí, ele fica indisposto, né. Pessoa indisposta ali, com preguiça, com aquela coisa toda e aí, ele vai, não consegue fazer um bom trabalho, uma boa coisa, não consegue produzir o suficiente. Aí às vezes, se ele não produzir o suficiente, tudo que ele é capaz de render, né, na hora do seu trabalho, aí ele fica panema. A gente diz ô, não trouxe nem a bóia, né. Passou a noite inteira lá e num pegou nem um litro de camarão, nem um quarto de camarão. Então ele está panema mesmo. Aí não tem outra palavra, não sei, é a panema que contempla. E coloca tudo isso para gente. É por aí. E mais ou menos essa a questão da panema. Então geralmente, para se tirar panema se faz essas pussangas, a defumação, são os banhos, a surra de pião rocho, por exemplo. Você pega aquela planta, pião rocho, e bate na pessoa, assim nas pernas, na costa, em cruz e pega um limão galegos, costa em cruz, bota um punhado de sal, extrema esta pasta todo no corpo e toma bando fora. Não é dentro de casa esse banheiro. Toma lá no quintal. Muda uma roupa limpa e dá uma volta. Vai pelo um caminho, volta pelo outro, não olha para trás, aí tudo isso vai tirando a panemeira, ele vai deixando, ele vem pensando em coisas boas, né, fluindo nos bons pensamentos e aí vem se recuperando, vem melhorando a auto-estima e aí vai melhor pro trabalho.

J: E essa tradição está bem viva, não é?

C: Viva, muito viva. Todas as pessoas vão em busca dela. Do menor ao maior. Até juiz de direito eu já vi indo atrás dessas pussangas, assim para ter segurança, para ter tranqüilidade no trabalho enfim. Então, todo aquele povo que vive ali na beira dos manguezais, da floresta, das ribeirinhas, a gente mantem isso, né, assim mesmo como uma religião, né. É coisa de muito valor, de muito respeito. Sagrado até.

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